Avanço da descarbonização no Japão e oportunidade estratégica para o Brasil.

Brasil tem tudo para liderar esse mercado, mas isso depende menos de potencial e mais de execução em áreas como regulação, infraestrutura e coordenação.

Avanço da descarbonização no Japão e oportunidade estratégica para o Brasil.

O governo japonês acaba de anunciar um crédito de aproximadamente US$ 1,1 bilhão para descarbonizar a JFE Steel, uma das maiores siderúrgicas do mundo. À primeira vista, parece apenas mais uma notícia setorial, mas vai muito além.

Esse movimento planejado mostra que Tóquio tem pressa para reduzir as emissões na cadeia do aço, que hoje é uma das mais poluentes do globo. Ao assumir parte do risco financeiro desses projetos, o Japão envia um recado claro ao mercado: a era da siderurgia de baixo carbono já começou e agora é uma questão de estratégia industrial e competitividade.

Atualmente, o setor responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂. Durante décadas, o uso de carvão nos altos-fornos foi o preço necessário para construir infraestrutura e sustentar grandes complexos industriais. Só que esse modelo ficou caro e insustentável.

O Japão não está sozinho nessa rota. A Europa segue o mesmo caminho com políticas como o CBAM, que taxa emissões sobre importações, além de diversos incentivos para acelerar a transição. O capital internacional já percebeu essa mudança e agora busca ativos que entreguem retorno financeiro junto com descarbonização real.

E onde o Brasil entra nisso?

Nosso país reúne uma combinação de fatores que quase nenhum concorrente tem: recursos minerais de altíssima qualidade e energia limpa em escala. Para alimentar os fornos elétricos, que são a base dessa transição, a pureza do minério é o que define se a conta fecha ou não.

Sem essa matéria-prima premium, mesmo a tecnologia mais moderna perde eficiência. O ponto crucial é que esse tipo de minério é raro e representa apenas 3% das reservas globais. É exatamente aí que o Brasil, com destaque para a Bahia, se torna peça fundamental no mapa global.

Essa vantagem competitiva une jazidas de alto teor com uma matriz elétrica renovável. Na prática, poucos lugares conseguem oferecer minério e energia limpa no mesmo pacote, e é esse binômio que está destravando a nova demanda mundial.

Apesar dessas qualidades, o Brasil ainda tem dificuldade em superar o modelo de exportação de volume com baixo valor agregado. Temos potencial para entregar um produto final já industrializado, com uma vantagem clara em um mundo que tenta desesperadamente cumprir metas ambientais.

É nesse contexto que surgem o ferro briquetado a quente (HBI) e o pellet, conhecidos popularmente como “ferro verde”. Não são apenas termos da moda, mas produtos que permitem às siderúrgicas reduzir a pegada de carbono sem perder qualidade.

O exemplo japonês também ensina que a velocidade é decisiva. Eles encontraram uma fórmula para acelerar investimentos ao colocar dinheiro público na mesa com prazos e metas bem definidas. Basicamente, quem se organizar primeiro vai ditar as regras do jogo.

Hoje, o maior entrave no mundo não é a falta de dinheiro, mas a escassez de projetos estruturados e seguros para receber esses investimentos. Há capital disponível, mas faltam projetos estruturados para recebê-lo.

O Brasil tem tudo para liderar esse mercado, mas isso depende menos de potencial e mais de execução em áreas como regulação, infraestrutura e coordenação. A escolha é simples: podemos continuar como fornecedores de pedra bruta ou virar protagonistas da nova indústria global. O movimento do Japão prova que a transição já saiu do papel e está acontecendo agora. O Brasil tem as cartas, só precisa saber jogar.

Emerson Souza vice-presidente de relações institucionais da Brazil Iron.

Fonte: Avanço da descarbonização no Japão e oportunidade estratégica para o Brasil