Setor busca rastreabilidade para comprovar que adota práticas sustentáveis e acessar mercados globais

Processo que acompanha a jornada de minerais desde a extração, a rastreabilidade mineral ganhou relevância com a adoção de mecanismos internacionais que consideram as emissões incorporadas aos produtos

Setor busca rastreabilidade para comprovar que adota práticas sustentáveis e acessar mercados globais

Por Gustavo Rossetti Viana — São Paulo
19/08/2026

O Brasil corre contra o tempo para garantir a origem lícita dos minerais e atender às exigências fiscais, regulatórias e ambientais do mercado internacional. Processo que acompanha a jornada de minerais desde a extração na mina, passando pelo beneficiamento até chegar ao consumidor final, a rastreabilidade mineral ganhou relevância com a adoção de mecanismos internacionais que consideram as emissões incorporadas aos produtos, como o mecanismo europeu de ajuste de carbono, que entrou em vigor em 2026 e taxa produtos como ferro, aço, alumínio, cimento, fertilizantes e hidrogênio.

Depois da Europa, a tendência regulatória deve avançar pelas principais economias interessadas na descarbonização. Para os especialistas, somente dados auditáveis podem garantir que os diferenciais competitivos do Brasil, como o minério de alta pureza e uma matriz energética limpa, sejam devidamente precificados pelos compradores globais, destravando a produção de baixo carbono e impulsionando as vendas para os mercados globais. “O rastreamento é uma ferramenta cada vez mais importante para acessar mercados que exigem informações não apenas sobre a origem dos minérios, mas também sobre as práticas de extração, os impactos socioambientais e as emissões de carbono. Permite comprovar não apenas de onde o minério veio, mas também sob quais condições foi produzido”, avalia Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas.

Os especialistas apontam que o Brasil tem vantagens naturais para produzir o chamado “ferro verde” (minerais de baixo carbono), como uma matriz energética limpa e renovável, abundância hídrica e reservas de minério de ferro de alta qualidade.

A Brazil Iron pretende investir US$ 5,7 bilhões para iniciar o Projeto Ferro Verde, empreendimento integrado de mineração, processamento e transformação mineral na região da Chapada Diamantina, na Bahia, com produção de 10 milhões de toneladas anuais de concentrado de minério de ferro de alta pureza. A mineradora está desenvolvendo sistemas de rastreabilidade de dados operacionais que cobrem toda a jornada do produto, desde a lavra mineral até as etapas de transporte e entrega aos portos de destino. “O monitoramento consolida informações verificáveis sobrea origem dos insumos minerais, o consumo de energia, a pegada de carbono associada, o cadastro qualificado de fornecedores e o cumprimento das condicionantes socioambientais”, destaca Emerson Souza, vice-presidente de relações institucionais da Brazil Iron.

Esse controle digital será auditado de forma independente e periódica. A empresa já fechou parceria com o Bureau Veritas para traçar um plano de verificação antes do início da produção, prevista para até 2031. O aço de baixo carbono será exportado para a Ásia (com foco no Japão), Europa e os Estados Unidos.

“A rastreabilidade é fundamental especialmente para pequenas e médias mineradoras, uma vez que as grandes já têm uma produção mais verticalizada”, pontua o diretor-presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário. No mercado do ferro, grandes mineradoras utilizam sistemas digitais para controle de qualidade e logística para atender às normas internacionais.

Empresas de tecnologia, como a Metso, fornecem sistemas usados por mineradoras para rastrear o minério desde a mina até a planta de processamento, correlacionando parâmetros de qualidade. A tecnologia utiliza etiquetas inseridas no fluxo de minério para acompanhar lotes específicos ao longo das operações de mineração e processamento mineral. “À medida que a União Europeia introduz os Passaportes Digitais de Produto, as mineradoras precisarão de informações mais confiáveis sobre a origem dos materiais. A tecnologia cria uma base para futuras iniciativas de rastreabilidade e para a geração de relatórios sobre cadeias de valor de baixo carbono”, diz Laender Azevedo, gerente de soluções de automação da Metso.

O diretor regional da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), Geraldo Iran, diz que, para impulsionar a rastreabilidade, é fundamental a distribuição de energia limpa a preços competitivos e segurança jurídica com regras claras, além de incentivos fiscais para a implementação de tecnologias de baixo carbono.

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), uma parcela das empresas e cooperativas de reciclagem já utiliza a rastreabilidade no país. Essas experiências, entretanto, ainda são fragmentadas e adotam metodologias distintas. Algumas acompanham a origem física do produto, enquanto outras se concentram em atributos ambientais ou em controles internos da cadeia de fornecimento. Para a agência, o Projeto de Lei 2.780/2024 — aprovado pela Câmara dos Deputados e em análise no Senado Federal —, que prevê a criação de um sistema de rastreabilidade para os minerais críticos e estratégicos, pode ajudar a comprovar uma produção com menor emissão, dar mais visibilidade às vantagens da matriz energética brasileira e aumentar a transparência perante os compradores.

Fonte: Setor busca rastreabilidade para comprovar que adota práticas sustentáveis e acessar mercados globais