Setor se prepara para um novo recorde de exportações brasileiras de minério de ferro

Após ter registrado o seu melhor desempenho histórico em 2025, para este ano a expectativa é de quebrar novamente o recorde de embarques, depois de o volume exportado da commodity crescer 2,4% no 1º semestre.

Setor se prepara para um novo recorde de exportações brasileiras de minério de ferro

Por Domingos Zaparolli, Para o Valor — São Paulo
19/08/2026

O volume de exportações brasileiras de minério de ferro caminha para registrar novo recorde em 2026, após ter registrado o seu melhor desempenho histórico em 2025, quando os embarques internacionais somaram 416,4 milhões de toneladas (Mt). No primeiro semestre de 2026, foram embarcados 189,4 Mt, um volume 2,4% superior ao do mesmo período do ano passado.

A receita obtida no semestre com as exportações do minério totalizou US$ 13,43 bilhões, uma alta de 5,2% em relação ao mesmo período de 2025. Além do aumento de volume, a valorização da commodity também contribuiu para a expansão da receita. O preço médio alcançado pelos exportadores brasileiros nos primeiros seis meses do ano foi de US$ 104,75 por tonelada, alta de 3,7% em relação ao primeiro semestre de 2025. Os dados são do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

A Vale, principal mineradora do país, produziu 153,9 Mt e registrou vendas totais de 148,4 Mt de minério de ferro no semestre, uma alta de 3,5% em relação ao ano passado. Em 2025 a companhia produziu 336 Mt e a projeção para 2026 é um total entre 335 Mt e 345 Mt.

Globalmente, o comércio marítimo de minério de ferro movimentou 1,77 bilhão de toneladas em 2025, de acordo com a S&P Global. A China foi destino de 75% dos embarques. A Austrália lidera as vendas internacionais com 977,2 Mt. O Brasil é o segundo no ranking.

“A estimativa do mercado é que a demanda global se mantenha no mesmo patamar até 2030, talvez com uma leve redução, mas sem gerar impacto significativo nos preços internacionais, que devem permanecer na casa dos US$ 100 por tonelada para o minério com 61% de teor de ferro”, diz Daniel Sasson, analista de commodities do Itaú BBA.

A estabilidade da demanda e dos preços da commodity é consenso entre os analistas, apesar de haver alguns sinais de retração no mercado. A produção global de aço registrou queda de 2% em 2025, totalizando 1,85 bilhão de toneladas, segundo a World Steel Association. Na China, a queda foi ainda maior, de 4,4%, para 960,8 Mt.

Mas as projeções da World Steel são de expansão da produção e consumo de aço em vários países. A Índia projeta dobrar sua produção de aço até 2030 e chegar ao patamar anual de 300 Mt. Vietnã, Indonésia, Malásia, Egito, Argélia, Nigéria e Estados Unidos são outros países com tendência de alta na produção nos próximos anos.

Pelo lado da oferta de minério de ferro, 2025 marcou o início do ramp up de um dos maiores projetos de mineração do mundo, o Simandou, na Guiné, que pertence à Rio Tinto e a um consórcio de empresas chinesas. A estimativa é que a produção alcance 120 Mt por ano em 2030. O minério é de alto teor de ferro, 65%.

Para Sasson, Simandou não vai gerar uma sobreoferta de minério de ferro. “Vai apenas substituir minas exauridas ou de baixa produtividade, principalmente na Austrália”, diz o analista. A estimativa é que o esgotamento da vida útil de antigas minas retire do mercado por volta de 3% da produção global, algo entre 50 Mt e 55 Mt por ano. Em quatro anos, são mais de 200 Mt. “Simandou adiciona 120 Mt por ano, ainda precisaremos de novas ofertas para manter o equilíbrio”, diz Sasson.

Os produtores brasileiros estão se posicionando para atender à demanda global. A projeção do Ibram é que os investimentos no Brasil em mineração de ferro somem US$ 19,8 bilhões até 2030. Na Vale, a maior mineradora do país, o guidance de investimentos em minério de ferro é de US$ 3,9 bilhões em 2026. A meta divulgada pela companhia é chegar a uma capacidade produtiva de 360 Mt em 2030.

A Cedro Mineração tem previsão de elevar sua capacidade produtiva para 20 Mt em 2032. Com duas minas, uma em Nova Lima e outra em Mariana, em Minas Gerais, a mineradora produz 7 Mt por ano. O projeto é gradual. A primeira etapa prevê investimentos avaliados em US$ 700 milhões para expandir a capacidade de produção em Mariana de 5 Mt para 7 Mt em 2028. Em uma segunda etapa, ainda sem orçamento definido, a companhia prevê expandir a produção de Mariana para 10 Mt por ano. O restante da expansão da produção virá de novas áreas adquiridas na região centro-sul de Minas.

O foco da Cedro é a produção de pellet feed, produto com teor de ferro acima de 55% e baixas impurezas. “É um produto que permite uma produção de aço com menor emissão de gases de efeito estufa e uma economia de US$ 15 a US$ 20 por tonelada”, diz José Carlos Martins, presidente do conselho da Cedro. No mercado internacional, o pellet é valorizado com um prêmio entre US$ 10 e US$ 15 por tonelada.

Hoje, a produção da Cedro é vendida no mercado interno, para siderúrgicas locais ou para mineradoras produzirem blends para exportação. “Com uma produção anual na casa de 20 Mt, vamos ter escala para participar diretamente do mercado internacional”, diz Martins.

A Samarco anunciou um investimento de R$ 13,8 bilhões, o maior de sua história, para elevar sua capacidade de produção de pelotas de minério de ferro de 15,1 Mt para 26 Mt em 2030. Na prática, a mineradora voltará à capacidade produtiva que tinha até 2015, antes do desastre ambiental do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), que provocou mortes e estragos socioambientais ao longo do rio Doce, até o litoral do Espírito Santo. O orçamento acordado com o poder público para a reparação dos danos e indenização das famílias atingidas é de R$ 170 bilhões, dos quais R$ 80,4 bilhões já foram desembolsados.

Hoje os rejeitos da Samarco são empilhados a seco, dispensando a barragem. Os investimentos contemplam a reforma de ativos de concentração no complexo de Germano, em Mariana, onde o minério é beneficiado, proporcionando uma concentração de 66% de teor de ferro, e a reforma de duas das quatro unidades de pelotização da companhia em Ubu (ES).

“Há um grande interesse por pelotas de ferro na siderurgia global, devido à capacidade do material em descarbonizar o processo produtivo”, diz Rodrigo Vilela, presidente da Samarco. “Enquanto uma tonelada de aço produzida com o sínter do minério de ferro gera uma emissão de 600 kg de CO2, a mesma tonelada emite 80 kg de CO2 com o uso de pelotas”, diz. A estimativa do executivo é que o mercado internacional de pelotas de ferro passará das 120 Mt atuais para 250 Mt em 2030.

Na Bahia, a Brazil Iron desenvolve um projeto integrado de produção de minério de ferro, em Piatã, e uma unidade em Ilhéus de produção de ferro briquetado a quente (HBI, na sigla em inglês), que apresenta pureza superior a 93% e também proporciona uma significativa redução na emissão de gases de efeito estufa no processo siderúrgico.

O investimento é de US$ 5,7 bilhões. A previsão da companhia é iniciar a operação em 2030, com uma capacidade de 5 milhões de toneladas por ano de HBI. A produção será totalmente destinada à exportação. “Já temos dez anos de produção comercializada”, diz Emerson Souza, VP de relações institucionais da Brazil Iron.

Fonte: Setor se prepara para um novo recorde de exportações brasileiras de minério de ferro