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Desafio para o país está em reduzir obstáculos para atrair empresas interessadas em atuar de maneira mais perene, e não apenas na lógica extrativista, diz especialista
Por Rafael Vazquez, Valor — São Paulo 22/04/2026
Enquanto as potências globais redesenham suas cadeias de suprimentos sob a pressão de guerras e desafios atrelados à crise climática, o Brasil tem a oportunidade de emergir no cenário internacional como uma peça-chave no tabuleiro da descarbonização industrial, segundo o geólogo britânico e diretor-técnico da Brazil Iron, empresa sediada no Reino Unido que mantém uma subsidiária em Piatã, cidade da Bahia localizada na região da Chapada Diamantina, rica em minério de ferro e manganês.
A companhia ocupa uma área de 430 km² no estado baiano e aguarda licenças ambientais para operar completamente, mas já projeta investir US$ 5,7 bilhões nos próximos cinco anos para explorar o potencial de “ferro verde”, expressão usada para se referir à produção de ferro e aço com um processo de baixa emissão de carbono.
Em entrevista ao Valor, o geólogo britânico afirmou que o setor siderúrgico passa atualmente por uma “bifurcação”. Segundo ele, deum lado, está o minério de baixa qualidade, dependente de combustíveis fósseis que tem perdido valor agregado diante de mecanismo como o Mecanismo de Ajuste de Fronteira de Carbono(CBAM) da União Europeia – regulamentação que taxa a importação de produtos como aço, alumínio e cimento com base nas suas emissões de carbono. Neste contexto, o Brasil tem vantagens naturais que precisam ser aproveitas, diz ele. E uma das principais é a capacidade de fornecer energia limpa para o processo de produção siderúrgico.
“O mundo precisa de ferro para descarbonizar, e não há como fugir do fato de que o Brasil tem o que o mundo precisa. O Brasil é onde a energia limpa está disponível”, comenta o geólogo da Brazil Iron.
Davies explica que a capacidade de gerar energia limpa no Brasil,especialmente no Nordeste, é fundamental para abastecer os chamados fornos elétricos a arco (EAF, na sigla em inglês),fundamentais para substituir os altos-fornos movidos a carvão na fabricação de aço.
A indústria do ferro representa aproximadamente 8% das emissões de carbono global. E dentro da indústria siderúrgica, essa representação é cerca de 25%. Portanto é uma questão com a qual todos teremos que lidar e quem estiver no Brasil estará em vantagem no caminho da descarbonização”, avalia.
Davies vê a combinação de reservas de minerais críticos do Brasil e a oferta de energia limpa como um grande diferencial estratégico para o país no século XXI. O desafio para o país está em reduzir obstáculos para atrair empresas interessadas em atuar de maneira mais perene, e não apenas na lógica extrativista. “O ideal é desenvolver estratégias para vender não somente para a China, que é o grande comprador,mas também para países como Estados Unidos e Japão. É o que queremos fazer com o ferro verde a partir de nossa produção na Bahia. Isso ajudará a desenvolver localmente a região”, diz.
Em relação ao cenário externo com países aumentando gastos em armamentos e guerras, o que naturalmente tende a reduzir financiamentos públicos para a descabonização, Davies observa que este mesmo problema joga luz para a necessidade de se olhar para fontes de energia alternativa. “A guerra atual [no Irã] está gerando justamente uma crise energética por causa do petróleo”, diz. “Então, a descarbonização continua sendo uma oportunidade em termos energéticos. O ritmo da transição pode diminuir, mas o movimento não vai parar”.
Foto: Divulgação
Fonte: Brasil possui vantagens estratégicas para produzir e exportar ‘ferro verde’, diz geólogo britânico | Brasil | Valor Econômico
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