Pressionado, setor tenta reduzir impacto ambiental.

Sustentabilidade produção de 'minério verde', empilhamento a seco e uso de energia renovável são algumas das medidas adotada.

Pressionado, setor tenta reduzir impacto ambiental.

Por Andrea Vialli – Para o Valor, de Salvador
29/04/2026

 

Ponta de lança da transição energética, a mineração tem sido mais confrontada sobre suas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Hoje, o setor vive o desafio de conciliar o aumento da produção, a demanda crescente por produtos e processos de baixo carbono e a chamada licença social para operar, que passa pela relação nem sempre amistosa com as comunidades próximas aos empreendimentos e o impacto sobre o meio ambiente. Após os desastres envolvendo barragens de rejeitos e com os novos investimentos em minerais críticos entrando na equação, a régua da sustentabilidade da mineração subiu, na avaliação de especialistas e das próprias empresas. “A agenda de transição energética traz mais investimento em projetos de mineração no Brasil. Lidar com conflitos ambientais e de acesso aos territórios será a tônica do setor, e mediar esses conflitos é onde está a inteligência”, diz Rinaldo Mancin, diretor de sustentabilidade e assuntos associativos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

O recorte Brasil da pesquisa “Top 10 business risks and oppor tunities for mining and metals”, estudo global feito pela consultoria global EY, corrobora essa percepção. A licença para operar está entre os três principais temas do setor de mineração, atrás de capital e aumento dos lucros e produtividade. Os fatores ESG ocupam a sétima posição na pesquisa, que ouviu 500 executivos do setor de mineração e metais. Além das relações com as comunidades, outros temas que aparecem na pesquisa são a mitigação dos impactos nos biomas, a descarbonização e agenda climática, diz Afonso Sartório, líder de energia e recursos naturais da EY.

Para performar no ESG, as empresas têm apostado em processos produtivos mais limpos e em produtos com menor pegada de carbono. Um deles é o minério de ferro do tipo “pellet feed”, que tem sido chamado de “minério verde” por possibilitar a redução de até 50% das emissões de gases estufa na siderurgia. Ultrafino e com alto teor de ferro (acima de 66%), requer menos carvão ou coque no alto-forno para a produção do aço. O produto tem demanda crescente em mercados como Europa e Oriente Médio e guia planos de expansão de várias empresas. Uma delas é a Cedro Mineração, que opera em Nova Lima e Mariana, no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, e produz 7 milhões de toneladas/ano de minério de ferro. A nova planta em Mariana, em fase de licenciamento ambiental, vai produzir 5,5 milhões de toneladas de “pellet feed”, voltados para exportação.

“O minério de ferro premium ocupa um papel estratégico no mercado global, contribuindo para a descarbonização da cadeia do aço”
Ana Cunha

O projeto está embasado em várias premissas de sustentabilidade, segundo Fabiano Carvalho, vice-presidente comercial e de estratégia da Cedro. “Será uma planta modelo. Além do minério de ferro de alto valor agregado, teremos empilhamento a seco em substituição a barragem de rejeitos, caminhões elétricos e a correia elétrica transportadora, que deve reduzir muito as emissões de carbono da operação”, diz o executivo. De acordo com ele, a correia carregará o minério de Mariana até o porto de Vitória, reduzindo os impactos ambientais do transporte rodoviário, como diesel e poeira.

O “pellet feed” também é o principal produto da operação do Sistema Minas-Rio, da Anglo American, que conecta via mineroduto as minas localizadas em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas até o terminal do Porto do Açu, em São João da Barra (R]). Em 2025, foram 24,8 milhões de toneladas produzidas, com teor médio entre 67% e 68% de ferro. “Hoje o minério de ferro premium ocupa um papel estratégico no mercado global, contribuindo para a descarbonização da cadeia do aço e para o avanço da transição energética”, diz Ana Cunha, diretora de assuntos corporativos e sustentabilidade da Anglo American.

Com foco na produção de pellet feed e do HBI (ferro briquetado a quente, na sigla em inglês), o projeto Ferro Verde, da mineradora inglesa Brazil Iron em parceria com a Companhia Baiana de Produção Mineral (CBPM), prevê investimento de US$ 5,7 bilhões em produção integrada, da lavra até os produtos finais. O projeto está previsto para ser uma operação carbono zero, 100% suprida por fontes renováveis e hidrogênio verde. “O caráter ‘greenfield’ do empreendimento permitirá adotar premissas modernas de engenharia desde o início. Ao utilizar eletricidade de baixo carbono no processo, posicionamos a Bahia como um dos locais mais estratégicos do mundo para a produção de ferro verde e HBI”, diz Emerson Souza, vice-presidente de relações institucionais da Brazil Iron. Questões ambientais e as relações com a comunidade, contudo, são um ponto sensível do projeto, situado nos municípios de Piatã, Abaíra e Jussiape, na Chapada Diamantina. A região abriga um parque nacional e é considerada a caixa d’água da Bahia, concentrando três das maiores bacias hidrográficas, além de abrigar comunidades tradicionais. O Estudo de Impacto Ambiental (FIA) prevê 17 projetos ESG para gerenciar e mitigar da nós, incluindo a formação de comissões de acompanhamento dos empreendimentos em Piatã e Abaíra — formadas por membros da sociedade civil local e do poder público local — além do monitoramento contínuo de fauna, flora e recursos hídricos, e estímulo à contratação de fornecedores regionais. “O acompanhamento das variáveis socioambientais já acontece e continuará sendo rigoroso”, diz Souza.

À medida em que o Brasil se posiciona como um exportador de recursos minerais estratégicos, organizações da sociedade civil alertam para o uso do discurso socioambiental como escudo para impulsionar flexibilizações na regulação e conceder mais benefícios fiscais às mineradoras.

“O setor se coloca como agente da transição energética. Mas há distância entre discurso e prática”
A. Cardoso.

Em nota técnica publicada no fim de abril, o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) alerta sobre esses pontos no PL 2780/2024, que tramita na Câmara e propõe o marco regulatório sobre os minerais críticos. Segundo a nota, existe um movimento político das grandes mineradoras para ampliar suas vantagens comparativas e seu lucro, subvertendo o discurso climático em benefício próprio. “O setor se coloca como agente da transição energética e de boas práticas, o que torna seus projetos elegíveis em linhas de financiamento ESG. Mas há uma distância entre discurso e prática”, diz Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc.

 

Foto: Divulgação

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