Indústria siderúrgica brasileira atinge seu limite, afirma executivo da Brazil Iron.

A Brazil Iron afirma que utilizará os recursos do Brasil para liderar uma transição para exportações de metais de baixo valor agregado e baixa emissão, abandonando o modelo tradicional de comercialização de minério de ferro, que atingiu seus limites. A empresa planeja abastecer siderúrgicas globais, operando com emissões líquidas zero de carbono.

Indústria siderúrgica brasileira atinge seu limite, afirma executivo da Brazil Iron.

A empresa, com sede no Reino Unido e foco no Brasil, planeja investir US$ 5,7 bilhões em seu projeto de ferro “verde” no estado da Bahia, no nordeste do Brasil, buscando capitalizar as oportunidades de descarbonização. O projeto visa a produção de até 15 milhões de toneladas/ano de ferro briquetado a quente, começando com uma capacidade de 5 milhões de toneladas/ano até 2030. Além disso, a capacidade inicial inclui 7,5 milhões de toneladas de matéria-prima para pelotas e 7,1 milhões de toneladas de pelotas anualmente.

Em uma entrevista com Kallanish, Guy Saxton, fundador e presidente da Brazil Iron, afirma que a abordagem tradicional brasileira de mineração e exportação de minério de ferro está atingindo seus limites, visto que Brasília busca exportações de maior valor agregado e siderúrgicas ao redor do mundo trabalham para reduzir as emissões. A nova empresa está determinada a desenvolver uma indústria de ferro verde na Bahia, aproveitando os recursos de minério de ferro de classe mundial e uma rede de energia renovável em expansão.

O projeto, com previsão de início da construção ainda este ano, utilizará energias renováveis ​​e tecnologia avançada de captura e armazenamento de carbono para reduzir as emissões em 90%. A Brazil Iron afirma também estar estudando a transição para o hidrogênio verde para garantir que atinja emissões líquidas zero. A operação se baseia em uma reserva de itabirito de 1,70 bilhão de toneladas e promete um concentrado com 67,5% de teor de ferro – uma especificação que, segundo a empresa, é alcançada por menos de 3% da produção mundial de minério de ferro marítimo.

Após investimentos de aproximadamente US$ 1,7 bilhão até o momento, a Brazil Iron aguarda sua licença ambiental e finaliza o financiamento. A empresa poderá se tornar pioneira na produção nacional de HBI, desbloqueando o potencial do Brasil para se tornar um importante fornecedor global de metais verdes.

Perguntas e Respostas com Guy Saxton

Kallanish: A empresa acredita que o Brasil pode se tornar um ator fundamental na descarbonização da indústria siderúrgica global?

Saxton: Absolutamente. O Brasil, e a Bahia em particular, possui a combinação perfeita para apoiar a descarbonização da indústria siderúrgica: reservas de minério de ferro de altíssima qualidade e uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. A descarbonização da produção global de aço depende da substituição dos altos-fornos por tecnologias de redução direta, como o ferro briquetado a quente. Como o Brasil pode fornecer o minério necessário e possui abundante energia renovável, o país está bem posicionado para ir além de ser apenas um exportador de matéria-prima e se tornar um polo global de ferro verde, o que ajudará a Europa e a Ásia a atingirem suas metas de emissões líquidas zero.

Kallanish: Quando a Brazil Iron espera exportar seu primeiro carregamento de HBI? A empresa já observou interesse por parte de clientes?

Saxton: A previsão é de que as operações em plena capacidade comecem em 2030, em linha com um cronograma de desenvolvimento que se inicia em 2026. Já existe uma demanda forte e estratégica. A empresa garantiu contratos de fornecimento de longo prazo, abrangendo os primeiros dez anos de produção, com clientes europeus e asiáticos. Esses parceiros não buscam apenas o produto em si, mas também acesso confiável a suprimentos, que devem se tornar cada vez mais escassos na próxima década.

Kallanish: Quais são as vantagens de comercializar HBI em comparação com pelotas?

Saxton: A principal vantagem reside na agregação de valor e na eficiência ambiental. Enquanto as pelotas ainda precisam ser processadas em um forno – consumindo energia e gerando CO₂ nas instalações do cliente – o HBI é um produto “quase finalizado”. Ele já passou pelo processo de redução. Para os clientes, isso significa uma redução significativa na pegada de carbono da produção de aço. Do ponto de vista logístico, o HBI é denso, estável e seguro para transporte marítimo (ao contrário do DRI padrão, que possui características de reatividade que exigem precauções adicionais).

Kallanish: Existem projetos semelhantes ao da Brazil Iron no Brasil?

Saxton: Nosso projeto é único. A Brazil Iron se destaca como o principal projeto independente concebido desde o início em torno da rota do HBI (ferro-hidrocarboneto), com foco claro na exportação para os mercados de aço verde premium. É um modelo de negócios construído com a descarbonização em seu cerne, integrando mina, uma ferrovia dedicada de 120 km e instalações de processamento de última geração na Bahia. Ao produzir HBI a partir de nosso minério de alta pureza, não estamos apenas exportando matéria-prima; estamos exportando energia armazenada. Isso nos permite operar fora dos tradicionais polos de minério de ferro e liderar a transição global para a siderurgia de baixo carbono com um produto pronto para o futuro da indústria.

Kallanish: Por que as mineradoras brasileiras têm relutado em produzir HBI? Não faria mais sentido agregar valor em vez de exportar minério bruto?

Saxton: Historicamente, as grandes mineradoras têm se concentrado no volume e na escala das exportações de minério bruto. A transição para a produção de HBI exige investimentos significativos e uma mentalidade operacional diferente. A Brazil Iron acredita que esse modelo tradicional está atingindo seus limites. O verdadeiro valor, e o maior prêmio de mercado, reside no fornecimento de HBI verde como matéria-prima para a transição do carvão para os fornos elétricos. Agregar valor no Brasil antes da exportação não só cria empregos qualificados localmente – com até 55.000 vagas previstas no pico da produção – como também permite que o país capture margens que atualmente são obtidas por outros países com gás barato ou siderurgia in situ.

Gabriela Farhangi | Reino Unido

Fonte: Indústria siderúrgica brasileira atinge seu limite, afirma executivo da Brazil Iron.